Eleições paulistanas: o caldo das intenções de voto

Eleições paulistanas: o caldo das intenções de voto

Samira Bevilaqua

Considerações sobre os resultados da pesquisa de intenção de votos para Prefeito de São Paulo, realizada pela Genial Quaest, publicada em 27.06.24.

Candidatura de Datena mexe o caldo

1) Datena não figura entre os candidatos declarados pelos entrevistados quando a pergunta não faz menção aos nomes dos candidatos (questão espontânea).

2) Datena chega pelo topo e crava empate técnico com os dois principais candidatos declarados na pesquisa, Nunes e Boulos, quando os nomes de todos os candidatos são mencionados (questão estimulada).

3) A candidatura de Datena pode crescer se a sua imagem for consolidada como candidato na disputa. No entanto, é o candidato que registra o maior índice de rejeição (51%).

4) No cenário estimulado (no qual Datena sai da cena), Nunes abocanha a maior fatia dos votos do apresentador (6%); 3% dos entrevistados migram para Boulos; 4% para Tábata; 3% para Pablo Marçal; e 2% para Marina Helena.

5) A porcentagem de indecisos aumenta em 4% quando Datena sai do jogo.

6) Datena é o candidato mais conhecido e também o que registra o maior índice de rejeição (51%), conforme mencionado. Boulos também tem rejeição alta (41%), assim como Nunes, que é rejeitado por 38% dos entrevistados.

7) Tábata, Kim, Marçal e Maria Helena – desconhecidos dos entrevistados – amargam altíssima rejeição, de 50% para cima.

8) Em resumo: todos os candidatos “sofrem” de mais rejeição do que de intenção de votos.

Por renda

9) Datena é o candidato que mais recebe votos da população de baixa renda (26%), seguido por Nunes (18%) e, então, por Boulos (13%), considerados os três candidatos que estão no topo da pesquisa.

10) O índice de aceitação da candidatura Boulos neste segmento parece indicar que a incorporação de Marta Suplicy à campanha, em razão do sucesso dos programas sociais durante sua gestão à frente da prefeitura de São Paulo, pouco agregou à campanha de Boulos até o momento.

11) Nunes e Boulos figuram entre os candidatos preferenciais dos entrevistados que percebem renda entre 2 SM e 5 SM ou mais de 5 SM. Os dois candidatos alcançam, cada um, cerca de 23% da intenção de votos.

12) Os eleitores mais indecisos estão entre os entrevistados com até 2 SM (11%). Nesta mesma faixa, 16% declaram que vão votar nulo/branco ou não irão votar: ou seja, ¼ dos eleitores de baixa renda não está identificado com nenhuma candidatura, mas representa um campo expressivo a ser disputado, principalmente, por Boulos (com a interlocução dos movimentos sociais) e por Nunes (com o auxílio da máquina de governo).

Por religião

13) Nunes, Datena e Marçal são os candidatos preferenciais dos evangélicos: 22%, 21% e 18%, respectivamente.  Boulos é o preferido de, apenas, 9% dos fiéis – dados que reforçam a percepção de que as candidaturas de esquerda ainda estão distantes de estabelecer conexão com os eleitores evangélicos.

14) Entre os católicos, Nunes, Boulos e Datena dividem a intenção de votos dos eleitores entrevistados.

15) Boulos é o candidato preferido de eleitores que professam outras religiões ou que se declaram sem religião.

Por idade

16) Boulos (20%) e Marçal (17%) disputam, ombro a ombro, os votos de eleitores entre 16 e 34 anos. O eleitorado com 60 anos ou mais declaram voto, preferencialmente, em Nunes (31%).

17) Tábata, cuja candidatura aposta em maior aceitação por eleitores jovens, performa apenas 9% nesse grupo etário.

Por apadrinhamento

18) Nunes (34%) e Marçal (20%) figuram como os maiores herdeiros dos eleitores de Bolsonaro em 2022.

19) Boulos é o maior herdeiro dos eleitores que votaram em Lula.

20) Datena embaralha a linha de “apadrinhamento”, pois absorve igual percentual de votantes em Lula (18%) e Bolsonaro (17%) em 2022.

21) Nunes abocanha 21% da intenção de votos dos votantes “nem-nem” nas eleições de 2022. Boulos, Datena e Marçal ficam com 11%, 13% e 12%, respectivamente.

22) 17% dos que votaram em branco/nulo ou não votaram em 2022 declararam a intenção de repetir o mesmo voto nas eleições municipais deste ano.

23) O apadrinhamento tem-se mostrado como um fator importante no cenário de polarização das eleições no país; tanto Lula quanto Bolsonaro transferem votos para os seus indicados. O caso de São Paulo é exemplar: os percentuais obtidos pelos dois candidatos ao cargo de presidente em 2022 foram refletidos nos resultados das eleições de governador do estado.

24) Considerado este fator, o cenário de disputa das eleições paulistanas ainda está nebuloso, já que 30% dos eleitores não sabem quem é o candidato apoiado por Lula e 38% desconhecem quem Bolsonaro apoia. E 41% não estabelecem relação entre Tarcísio e um futuro candidato ao cargo de prefeito.

25) E, no entanto, 50% dos entrevistados dizem preferir que o próximo prefeito da cidade não seja aliado nem de Lula, nem de Bolsonaro. Dentre esses, a maioria afirma não votar apenas por indicação, em candidato desconhecido e indicado seja por Lula, Bolsonaro ou Tarcísio.

26) Dado que Tarcísio de Freitas indicado por Bolsonaro, mas desconhecido até o início das eleições de 2022, obteve menos votos na cidade de São Paulo e perdeu para Fernando Haddad, o apadrinhamento parece ter um valor menos determinante na capital.

Segundo turno

27)  Se o segundo turno fosse hoje, Nunes ganharia as eleições em todos os cenários de disputa. Boulos venceria apenas contra Marçal. Datena ganharia de Boulos.

28) Marta Suplicy encabeça o topo da lista de melhor prefeito da cidade, seguida por Maluf. Nunes ocupa a sexta posição.

29) Os dados sinalizam que Marta não está agregando a quantidade de votos esperados para a candidatura de Boulos, embora seja reconhecida como a melhor prefeita da cidade. Mas Nunes, reconhecido por apenas 4% dos eleitores como o melhor prefeito, lidera a intenção de votos no segundo turno.

30) O percentual de indecisos varia entre 4% e 7% em todos os cenários de combinação de disputa.

31) Por outro lado, é expressivo o percentual daqueles que declaram voto branco/nulo ou que não irão às urnas, em todos os cenários de disputa no segundo turno, repetindo o ocorrido no segundo turno das eleições presidenciais de 2022:  aproximadamente 20% dos eleitores.

A candidatura de Datena borbulhou o caldo, mas ainda há muitos ingredientes para ser fervido nos próximos meses.